Tecnologias

10/11/2017 (10h11) - Atualizada em 10/11/2017 (10h11)

Pesquisadores estudam potencial do babaçu para a produção de biodiesel


Com o aumento dos efeitos naturais provocados pela liberação na atmosfera de gases que potencializam o efeito estufa e a possibilidade de esgotamento de fontes mineiras de energia, como o petróleo, as pesquisas que buscam fontes alternativas de combustíveis tem fundamental importância. O efeito estufa é fundamental para a manutenção da vida na terra, já que serve para manter o planeta aquecido. No entanto, algumas atividades humanas têm intensificado este fenômeno e produzido o que conhecemos como aquecimento global, que deixa a atmosfera mais intensa em seus fenômenos climáticos, como a escassez de chuvas em determinadas regiões e excesso em outras.



Neste contexto, a busca por alternativas para contornar estes efeitos tem permeado os estudos nas mais diversas áreas do conhecimento. No Piauí, o doutor em Química Analítica, professor Manoel Gabriel Rodrigues Filho, da Universidade Estadual do Piauí (Uespi), coordena um estudo que visa obter biodiesel a partir do fruto do babaçu, palmeira típica bastante conhecida no estado.



“A pesquisa partiu da tentativa de agregar valores ao subproduto do babaçu, tendo em vista que nós temos uma das maiores produtividades e uma cadeia em desenvolvimento. Dessa forma, a gente buscou transformar o óleo do babaçu no biodiesel, que é um combustível que vem sendo utilizado e que tem uma tendência de crescimento dentro da cadeia do transporte nacional. Levando em consideração a menor quantidade de poluentes provenientes de combustíveis obtidos de fontes renováveis, em detrimento de combustíveis obtidos através de fontes minerais ou fóssil, no caso o diesel, que é a cadeia de maior produtividade no país”, explica o pesquisador.



De acordo com o professor, o biodiesel obtido através do babaçu tem características que o tornam o biocombustível de melhor qualidade em relação aos demais biodieseis produzidos no Brasil. O produto extraído do babaçu além de ser mais limpo, tem uma vida útil maior.



O pesquisador explica que grande parte do biodiesel brasileiro é obtida da soja, cujo subproduto tem uma vida útil menor e, por isso, precisa ser aditivado com produtos sintéticos, fato que implica em uma perca da característica renovável do combustível. Manoel Gabriel explica que o biodiesel extraído pode ser usado como aditivo daquele que é extraído da soja, tornando assim, o produto totalmente sustentável.



“Hoje o Brasil tem aproximadamente 70% de biodiesel obtido da fonte, que é o óleo de soja, mas, em contrapartida, esse biodiesel tem um tempo de vida útil muito pequeno, ou seja, ele oxida e envelhece com facilidade, principalmente na região nordeste onde a temperatura é elevada. Desta forma, quando utilizamos o biodiesel obtido da soja temos que aditivar, para que a vida útil do biodiesel passe a ser maior e aí você já perde o foco de um produto renovável, que não teria poluentes, e passa a ter uma poluição proveniente dos aditivos ali colocados”, explica.



“Nós estamos corrigindo o biodiesel de soja, que tem um período de oxidação muito curto, adicionando a ele o biodiesel de babaçu. O próprio biodiesel de babaçu serve como aditivo para o biodiesel de soja, para que não ocorra o processo de oxidação, assim passaríamos a ter uma correção natural, fazendo com que toda a cadeia do biodiesel fosse, além de renovável, sem poluentes sintéticos adicionados à matéria prima”, complementa o professor.



O pesquisador ainda destaca que a produção do biodiesel através do óleo extraído do fruto do babaçu cumpre um papel social importante, tendo em vista que dá visibilidade aos membros da base da cadeia produtiva do babaçu, como a quebradeira de coco, por exemplo.



Na atual fase da pesquisa desenvolvida na Uespi, os pesquisadores estão realizando testes com proporções para definir as concentrações necessárias para que o biodiesel do babaçu tenha o melhor desempenho como aditivo para o biodiesel extraído da soja.



“Nós estamos variando as proporções, buscando a melhor proporcionalidade para que nós tenhamos a vida útil do biodiesel de soja de acordo com as normas da Agência Nacional de Petróleo. A ANP só aceita um biocombustível no mercado se ele tiver um tempo de vida útil de um período de indução de seis horas, hoje a soja pura chega a duas horas, então a gente está em busca desta proporcionalidade para que, com a adição do biodiesel de babaçu, a gente chegue ao exigido pela ANP”, explica o professor.



 



 



Manoel Gabriel ressalta que embora o babaçu produza um biodiesel superior aos demais, o produto não teria a capacidade de suprir a cadeia do biodiesel no Brasil, sobretudo, pela carência da matéria prima até porque nós não teríamos matéria prima para isso. Segundo ele, o foco é a correção do biodiesel extraído da soja.



“Hoje, a ideia é que se nós tivéssemos condições de corrigir as propriedades físico-químicas do biodiesel de soja utilizando o biodiesel de babaçu, muito provavelmente esse produto barateava, porque não precisaríamos utilizar aditivos sintéticos”, afirma o pesquisador.



O professor destaca que a grande barreira para o inicio da produção em massa do biodiesel do babaçu é a obtenção da matéria prima e distribuição para o mercado industrial, especialmente pelo caráter artesanal da obtenção dos frutos da palmeira.



“O grande desafio é a saída da matéria prima ou a obtenção dessa matéria prima, onde nós temos gargalos. O maior gargalo da cadeia do babaçu é o mecânico, a coleta do fruto e a extração desse óleo, que, infelizmente, ainda são processos artesanais. Então, para suprirmos um mercado industrial, teríamos que melhorar lá na ponta. A questão cientifica do biodiesel já está basicamente resolvida, agora existe a questão da matéria prima até o passo industrial, para que se tenha o subproduto do babaçu que possa suprir a indústria do biodiesel no Brasil”, finaliza o professor Manoel Gabriel.



Fonte: Ascom